Poesia cantada

Sérgio Sampaio – Maiúsculo

do disco Cruel

-

Como é maiúsculo o artista e a sua canção

Relação entre Deus e o músculo

Que faz poderosa sua criação

Pensando bem, é um mistério (…)

Como é misterioso o coração

.

Como é minúsculo o olhar de quem vive no escuro

Um sujeito malvado e burro

Alguém machucado por não ter um bem

Não tem porém, mas tem um tédio:

Não ser vítima do assédio de ninguém

.

.

Quase não dorme, vive ao avesso, medo conhece bem

Sem endereço, como é que pode não fazer mal também

.

.

Tenho meus vícios

Vivem dentro de mim, esses bichos

São o pai e a mãe dos meus lixos

E as vezes me levam de mal a pior

Pergunto quem não sabe disso

Os momentos em que a vida não tem dó

.

Solto meus bichos

Pelas músicas, quando me aflijo

Mas um homem sem esse feitiço

E sem um carinho a que recorrer

Pode matar, querer morrer

Pois perdeu todo sentido de viver

.

.

Quase não dorme, vive ao avesso, medo conhece bem

Sem endereço, como é que pode não fazer mal também (2x)

.


Das dores

Lembro das velhas dores.

Ponho-as lado a lado com estas novas e (…) comparo-as.

Noto como as novas são indelicadas, despreocupadas ao se porem sobre meu corpo,

como se marchassem com botas pesadas.

Tão diferentemente das velhas dores que bailam formosas  ao som de qualquer cantor que tenha vivido essa dor velha…


Como brilha o ser sábio.

Fico abismado com a profundeza de tal ser.

O abismo que é o ser sensível, de dores e alegrias profundas.

Como é sábio o ser sensível.

Que lindo é o imenso traço de luz que emerge da superfície desse ser sensível de tão sábio…

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Essa fome que t…

Essa fome que tenho..
É comer com os olhos e ganhar peso
sentir-se o mais obeso
o mais preso à vontade
uma vontade que se sacia com os farelos do que realmente sacia
o mais obeso
se lambuzando com o resto
e vomitando tudo na própria roupa, em sacos plásticos, no próprio quarto
obeso demais pra mover o pé e descer da cama
um salto tão grande, parece
e eu já tenho o conforto da minha cama
eu já tenho o conforto do meu coma
sonho meu coma vivendo, não a falta de apetite, mas a saúde
escrevendo um verso mais sadio e menos sádico


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Saudade do ócio. Da hora vaga (pro vagal)…

Do vazio na criação..

agora é cabeça cheia, saco cheio..

não gozo do meu lirismo

minha escrita é masturbação


velha dor

E então uma dessas tantas madrugadas me trouxe uma velha dor…

E então essa madrugada me trouxe um remédio até um tempo inexistente..

Sem prazo de validade…

“Can’t keep runnin’ away…”


Meu caso

Acho que vivo – muito – no abstrato.

Então me acho morto no concreto – já demarcado a giz e ainda desconhecido aos olhos populares.

O famoso ‘desconhecido que morreu sem saber porquê’ . Melhor, sem saber porquês.


Cruel..

Tudo cruel tudo sistema
Torre babel falso dilema
É uma dor que não esconde seu papel
Morro borel
Eu subo e nunca estou no céu

Tudo joão nada na mesa
Deu no jornal mãos na cabeça
Um marginal que já não pode mais fugir
Vai reagir
Menino é bom ficar de olho aí

Que tudo é desse mundo
Surpresa também
Espinho é bem mais fundo
Destino também
O amor tá quase mudo
Minha voz também
Cruel é isso tudo

Tudo tão mal tão sem beleza
Doce de sal lagrima presa
O que eles falam não se deve nem ouvir
Verbo mentir
Menino é bom ficar de olho aí


Peraí.. to saindo já

Eu sei que eu sou um estranho

E essa pequenina e drástica mudança na sua rotina vital te assusta,

mas não se incomode, meu senhor, pois já vou.


Hoje não


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